'Através' e 'o mesmo', muletas do português


Você encontra seu amigo, cumprimenta-o e afirma:

- Ontem, vi seus comentários através do Facebook. Gostei muito dos mesmos!

Certo? Errado!!! Duvido que você fale assim. Certamente, você diria?

- Ontem, vi seus comentários no Facebook e gostei muito!

Não é mais simples? Então, por que na hora de escrever as pessoas querem parecer intelectuais e ficam usando muletas da língua portuguesa como "através" e "o mesmo"?

Simplicidade, inclusive na escrita, é o ideal. O importante é a comunicação simples e pura. Ficar inventando modismos é horrível.

Atitudes como estas me fazem lembrar o professor Astromar Junqueira, personagem de Rui Resende na novela Roque Santeiro (1985), da TV Globo. Ele fazia discursos usando palavras "difíceis". Não se comunicava corretamente, pois a maioria não entendia nada. Mesmo assim era aplaudido com fervor e considerado um homem muito inteligente.

Naquela época (anos 1980), o autor Dias Gomes já mostrava que "falar difícil" é muito valorizado, mesmo que ninguém saiba do que a pessoa está falando. E passou muito bem sua mensagem, até hoje atual...

Esse tipo de atitude (escrever difícil) ainda é muito comum no Direito, por exemplo. O juridiquês está cheio de jargões e não muda. Acham pomposo! Entre os médicos, também, existe a mania de escrever com letra inelegível, para que o paciente não entenda nada. E muitas vezes nem o farmacêutico...

São atitudes retrógradas. Os tempos mudaram. A comunicação mudou, mas muita gente não percebeu que a mensagem precisa ser entendida para que cumpra seu papel.

Outra mania que persiste nos dias de hoje é escrever números em algarismo romano. Se o português já é uma língua difícil, imagina ficar tentando decifrar XV, XIX, entre outros! É muito melhor escrever "Bento 16" do que "Bento XVI"; prefira rua 15 de Novembro a XV de Novembro. Você lê de primeira com o número em vez de tentar descobrir o que significa porque não se lembra do que ensinaram na escola.

Voltando aos dois objetos iniciais deste texto: "através", segundo o dicionário Houaiss, um dos mais atualizados, significa "de lado, de través, transversalmente, de atravessado". Resumindo: o correto é usar quando atravessar alguma coisa (Ele chegou ao bairro através do campo; ele passou do outro lado através da janela), mas virou mania. Encaixa em tudo: "O contato foi feito através de um amigo", quando o melhor seria "O contato foi feito por um amigo"; "Você pode obter mais informações através do nosso site", quando o melhor seria simplesmente "Você pode obter mais informações em nosso site"...

Já "o mesmo" é uma aberração. Totalmente desnecessário. Mas acham bonitinho e tascam em qualquer coisa também: "O acusado estava com uma arma. Então, conseguimos prender o mesmo", quando o melhor seria "O acusado estava com uma arma. Então, conseguimos prendê-lo". Simples e objetivo.

O engraçado de tudo isso é que uma grande parte dos brasileiros não se preocupa em escrever errado em seus textos, mas adora florear com palavras desnecessárias. Mistério...

Se você quer escrever bem, então faça de forma direta e simples. Não invente, não use palavras "difíceis", não deixe o leitor confuso. Preocupe-se sempre em consultar um dicionário para não cometer erros bobos e usar um corretor ortográfico, como o existente no Word, para não deixar passar erros de digitação. Seja compreendido!

O blogueiro José Marcos Taveira, ou Zemarcos, é jornalista com especialização em Comunicação Social. Mora em Araçatuba, cidade do interior de São Paulo (Brasil).