Dicas para jornalistas escreverem melhor


Atualizado em 15/09/2017

Um texto jornalístico é muito diferente de um artigo. Se você gosta de escrever, entende bem de português, não significa que é um jornalista nato, como muitos pensam. Quer dizer apenas que está no caminho certo.

Muitos jovens chegam às redações achando que todos estão ultrapassados e ele vai mudar o mundo, porque não têm medo de nada; acha que, "se a Globo não divulga", como está cansado de ver nas redes sociais e sempre acredita nessas correntes, ele fará o serviço. É o primeiro erro. Quando o ego é maior que o talento, impede que portas se abram e o conhecimento de profissionais experientes seja compartilhado.

Aliás, todo jornalista tem um ego enorme, mas nem se compara aos novatos. Quando se chega a uma redação achando que tal cobertura, por mínima que seja, não é para o seu nível, já está mostrando arrogância demais e, a menos que seja um prodígio, não ficará muito tempo na equipe. Seja humilde e esteja sempre pronto para ouvir e aprender.

Mesmo jornalistas experientes têm prazo de validade em redações se não souber lidar com hierarquias ou conviver pacificamente com seus colegas. E as redações de vários órgãos de imprensa "conversam" entre si, mesmo sendo concorrentes, e ficam sabendo quem é "estrela" ou problemático, fechando suas portas para ele ou ela. Depois, esse (ou essa) jornalista se faz de vítima, buscando apoio de "amigos" das redes sociais, que nem sabem o que ele apronta no trabalho, que seus textos e -até informações apuradas - são sempre corrigidos pelos editores, mas mesmo assim o defendem.

Se você é novato no jornalismo e está lendo este texto para absorver conhecimento, parabéns. Todo ser humano precisa estar em eterno aprendizado, caso contrário a vida não tem graça. Se você já é experiente e chegou até aqui por curiosidade, fique à vontade para contribuir e compartilhar conhecimentos, deixando comentários construtivos. Se você mora em uma cidade pequena, tem um site de notícias, mas nunca fez uma faculdade de jornalismo e gostaria de aprender a escrever de forma profissional, espero que possa ajudar.

Voltando aos textos jornalísticos: o primeiro erro é achar que você leu um montão de livros e, por isso, sabe escrever muito bem. Não é bem assim. É preciso seguir regras em uma redação com profissionais de verdade, trabalhar sempre com a tal "pirâmide invertida" nas reportagens factuais e usar "nariz de cera" apenas quando tiver prática; sem contar o "lead" ou "gancho", que são essenciais.

Não sabe o que são esses termos? Então, vamos aprender.

A "pirâmide invertida" é usada para dar prioridade a um texto, uma hierarquia sobre o que vai contar. Assim, o importante vem em primeiro lugar; o menos importante por último, permitindo que o editor corte a "gordura" no pé.

O "lead" ou "gancho" é o assunto principal, que ficará no topo da "pirâmide invertida". Se você vai fazer a cobertura de um evento, seu "lead" é o que apurou de mais importante, e não uma data, um dos principais erros na hora da escrita jornalística de novatos - e até alguns experientes ruins de serviço.

O "nariz de cera" é uma introdução criativa para sua matéria e geralmente usado em material especial. Por que especial? São aquelas reportagens bem trabalhadas, em que o repórter ouve várias fontes e acrescenta "retrancas" (textos menores, que completam o "abre"), geralmente publicadas em um domingo nos jornais impressos. Mas nada impede que faça isso em matérias factuais, como coberturas policiais cotidianas, se tiver prática. Caso contrário, fica horrível e obriga o editor a refazer seu trabalho, reescrevendo a matéria.

Por exemplo: um zelador foi atropelado e morto quando ia para o trabalho. Se o texto for factual, você começa dando a notícia de forma direta: "Um zelador morreu na tarde desta quinta-feira, em Araçatuba, atropelado por um automóvel quando pedalava sua bicicleta pela avenida Brasília, em Araçatuba".

Usando "nariz de cera", você apela para a sensibilidade: "O zelador José da Silva sempre foi muito querido no Edifício Carvalho, em Araçatuba. Todos o conheciam por seu jeito simples e prestativo. Ele exibia sempre um sorriso e cumprimentava a quem encontrasse na portaria. Nesta quinta-feira, a sala onde ficava na entrada do edifício estava vazia. Silva foi atropelado e morto quando pedalava sua bicicleta a caminho do prédio onde passou 20 dos seus 47 anos de idade."

Veja aqui um ótimo exemplo de "nariz de cera" impecável.

A seguir, algumas dicas que vão ajudar jornalistas - novatos e experientes - a escrever melhor:

- NUNCA, NUNCA MESMO, INICIE UM TEXTO COM A DATA. Por exemplo: "Ontem, começou o festival de cães e gatos". Pense sempre que no texto jornalístico você informa o "principal" logo de cara. Assim, "ontem" é apenas um detalhe. Então, prefira: "O festival de cães e gatos e Birigui começou ontem". Mas se quiser escrever melhor, procure um "gancho" (o fato mais chamativo) e comece por ele. "Mais de 300 animais, entre cães e gatos, estão em exposição em um festival que está sendo realizado em Birigui, que começou ontem e vai até domingo";

- SE VOCÊ NÃO TEM UM "GANCHO", NÃO TEM UMA REPORTAGEM. É baseado no fato mais chamativo que o editor vai criar um título para atrair a atenção dos leitores. Por isso, ao fazer uma reportagem, busque sempre alguma coisa diferente. Se vai cobrir a visita de um político à cidade, foque seu texto no que ele disse de mais importante. E comece por aí. Por exemplo: "O governador Geraldo Alckmin vai construir uma nova rodovia entre Araçatuba e Birigui. A obra vai custar R$ 20 milhões e deverá começar no próximo ano. O anúncio foi feito ontem, durante visita do tucano a Araçatuba para inauguração de um posto de saúde". Não comece seu texto com "O governador Geraldo Alckmin esteve ontem em Araçatuba..." Saia sempre do lugar-comum;

- Se tiver dificuldade em iniciar um texto, PENSE SEMPRE NA CONVERSA DE BOTECO. Isso mesmo! Você marca um encontro com amigos em um boteco e chega contando novidades que viu pelo caminho. Cumprimenta os caras e começa dialogando com data ou coisas irrelevantes? Não! Vai direto ao ponto. Você não inicia uma conversa assim: "Ontem, às 15h, na rua da Cereja, esquina com a Melão, bairro das Costas, dois homens, um deles vestindo calça jeans e camiseta e o outro um macacão, foram mortos"? Nada disso! Você conta logo o que aconteceu. "Dois homens foram mortos a tiros na rua tal...";

- ESCREVA DE FORMA SIMPLES; O IMPORTANTE É SER ENTENDIDO. Assim, evite a "Síndrome do professor Astromar Junqueira", um personagem fictício de Roque Santeiro, novela dos anos 1980 da TV Globo. Ele era um homem muito culto, sempre chamado para fazer discursos em inaugurações da Prefeitura. Então, falava um monte de palavras difíceis e a população aplaudia, elogiando muito, mas sem entender absolutamente nada do que ele disse. Quanto mais o texto jornalístico for simples, sem palavras difíceis, melhor. Explique termos que não são populares;

- USE SEMPRE AS CINCO PERGUNTAS BÁSICAS DO JORNALISMO. Ao preparar seu texto, prepare-se sempre para responder a cinco questões básicas:

1) O quê? - Qual é o assunto principal? Um acidente? um incêndio?
2) Onde? - Onde aconteceu? Qual cidade, endereço?
3) Quando? - Qual o horário? E a data?
4) Quem? - Quem está envolvido? Qual é a vítima? Quem é o acusado?
5) Por quê? - Como aconteceu? Quem é o responsável?

- NUNCA USE JARGÕES POLICIAIS. "Elemento", "meliante", "entrou em luta corporal", "se evadiu", entre outros, são formas utilizadas por policiais civis e militares na confecção de boletins de ocorrência e até no linguajar informal. Eles aprendem assim. Mas no jornalismo isso é inadmissível. Substitua tudo em seus textos por termos mais conhecidos, como "o suspeito", "o acusado", "brigou" ou "fugiu". A mesma regra para o juridiquês, ou seja, uso de termos técnicos usados por juízes ou advogados em processos. Fuja deles;

- "ATRAVÉS" É UMA MULETA que passou a ser usada para tudo. Nunca use em seu texto! Vá direto ao ponto, como sempre. Exemplo: em vez de "O curso foi aprovado através da ajuda do deputado tal", escreva "O curso foi aprovado com ajuda do deputado tal";

- "O MESMO" É OUTRA ABERRAÇÃO. Nunca use, pois é inútil. Parece que fica culto, mas na verdade é outra muleta. Exemplo: Em vez de "O homem foi capturado, pois o mesmo era foragido da Justiça", escreva "O homem foi capturado, pois era foragido da Justiça";

- "ALÉM DE" NÃO PRECISA DE "TAMBÉM" OU "MAIS". É o que chamamos de "gordura" em texto, muito usada, mas totalmente desnecessária. Se você começa uma frase com "além de", significa que haverá mais. Exemplo errado: "Além do adolescente, também foram presos três adultos". O correto é "Além do adolescente, foram presos três adultos". Simples assim;

- O CORRETO É "HÁ POUCO" E NÃO "AGORA HÁ POUCO". É um recurso muito usado na TV para tentar passar que o fato acabou de acontecer. Mas é errado; ou ocorre "agora" ou ocorreu "há pouco". Esta mistura é pura invencionice usada apenas na linguagem informal;

- NUNCA USE "DOUTOR". Não vale a pena entrar na famosa polêmica sobre o uso de doutor por advogado, médico ou quem fez doutorado. Por isso, chame o profissional pela função e nome, nunca incluindo o doutor. Exemplo: "O advogado José da Silva está defendendo o acusado"; "O cardiologista José de Almeida foi o responsável pela cirurgia";

- CHAME O ENTREVISTADO PELO SOBRENOME E A ENTREVISTADA PELO PRENOME. Quando você conversa com José da Silva, informa o nome completo dele e a função no início; depois, vai chamando de Silva. Se for Maria da Silva, é o contrário; vai chamá-la durante o texto de Maria. Ao contrário dos Estados Unidos, o jornalismo brasileiro não chama mulheres pelo sobrenome. Aqui, por exemplo, a ex-presidente Dilma Rousseff é apenas Dilma e não Rousseff; Hillary Clinton é só Hillary e não Clinton. Já os homens são tratados pelo sobrenome, a não ser que seja político ou figura pública. Assim, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é chamado aqui de Lula; no estrangeiro, Da Silva; já Neymar Júnior é só Neymar por aqui;

- A VÍRGULA É ESSENCIAL. Se tem dificuldades, consulte manuais ou profissionais mais experientes, mas nunca deixe de aprender. Um erro comum é não usá-la após um cumprimento ou sempre que acrescentar um nome após uma frase. Um caso comum de falta de vírgula atualmente é o "fora, alguém". Por exemplo: "Fora, Dilma"; "Fora, Temer"; "Fora, Maia". Se você não usa a vírgula nesses casos, está excluindo a pessoa de alguma coisa. Exemplo: "Todo mundo é corrupto, fora Dilma". A mesma coisa acontece com "parabéns" ou "obrigado". Lá está a vírgula, obrigatoriamente: "Parabéns, Araçatuba"; "Obrigado, leitor";

- JÚNIOR TEM ACENTO. Virou moda agora tirar o acento de nomes. Acredito que para americanizar o troço. Mas Júnior tem, obrigatoriamente, a não ser que a pessoa adote um nome artístico e não use, avisando o repórter sobre este detalhe. Fora isso, use sem dó;

- USE SEMPRE UM CORRETOR ORTOGRÁFICO. Nunca confie em seu cérebro, pois ele deixa você ler mesmo que a frase esteja ao contrário. Por isso, mantenha sempre o Word ao seu lado, pois vai encontrar sempre palavras digitadas erradas e até erros de concordância;

- NUNCA USE NÚMEROS ROMANOS. São ultrapassados e dificultam o entendimento rápido do leitor. Em vez de "século XVIII", escreva sempre "século 18". O mesmo acontece com nomes de reis, imperadores ou religiosos. Escreva sempre Dom Pedro 1º , papa Bento 16, rei Henrique 8º...

- NÃO RESISTIU E MORREU. Outra mania de muitos colegas de imprensa. Se morreu é porque não resistiu. É óbvio! Use um ou outro. Exemplo: "A vítima foi socorrida, mas não resistiu" ou "A vítima foi socorrida, mas morreu;

- POSTO DE GASOLINA. Outra mania antiga. Não se vende apenas gasolina em postos. O correto é "posto de combustíveis" ou até "autoposto";

- PROFISSÃO SE ESCREVE COM LETRA MINÚSCULA. Nunca escreva em letra maiúscula o cargo exercido por alguém. Assim, o correto é "O prefeito José da Silva..." e não "O Prefeito José..." A regra existe até para papa ou qualquer outra função religiosa. Então, escreva "papa Francisco" e não "Papa Francisco"; "cardeal José da Silva", e não "Cardeal José da Silva".

- "AÍ", UMA MULETA PARA TV AO VIVO. É insistentemente usado em eventos ao vivo na TV pelo jornalista ou apresentador, como se ficasse mais casual. "Vamos conversar aí com o direto da empresa"; "Vamos mostrar aí onde ocorreu o incêndio". É difícil, sim, fazer uma transmissão ao vivo, mas usar "aí" nunca vai deixar mais casual ou melhor. Pelo contrário. Mostra que o vocabulário do apresentador ou repórter é curto.


EM TEMPO 1
Este post será sempre atualizado, mesmo que fique muito grande, o que atualmente é algo abominável para meros leitores de títulos no Facebook ou adeptos de "textinhos".

Se você quer ser um bom jornalista, não se deixe contaminar por esses modismos. Leia muito, escreva mais ainda e nunca tenha dúvidas. Se não conhece uma palavra, consulte um dicionário (mantenha perto, pois é a bíblia do jornalista). Se tem dúvidas com relação à construção de texto, consulte uma gramática ou um profissional experiente.

Lembre-se que as redes sociais estão cheias de "professores de português" que não sabem nem a diferença entre "mais" ou "mas", mas estão prontos para apontar o dedo para um erro seu e fazer piadinha pronta, como se jornalista não fosse humano e as redações tivessem apenas estagiários. Aliás, conheço alguns estagiários muito melhores do que um monte de profissional experiente.

EM TEMPO 2
O bom jornalismo, ao contrário do que algumas pessoas pregam aos ventos, vai continuar sendo essencial na vida das pessoas. É graças a eles que leitores preocupados realmente com a verdade vão continuar sabendo se é uma corrente falsa ou não o que viram divulgados por Whatsapp ou Facebook.

O blogueiro José Marcos Taveira, ou Zemarcos, é jornalista há 30 anos, com especialização em comunicação social. Mora em Araçatuba, cidade do interior de São Paulo (Brasil).
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